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A jogada do McDonald's na América

Negociação para venda da filial latina deve ser fechada com o Pactual e Wood Staton.

Gazeta Mercantil
15 a 17 de dezembro de 2006
Coluna Administração e Serviços

O desfecho sobre quem vai ficar com a operação latino-americana do McDonald's está próximo: o banco de investimentos Pactual e o empresário argentino Wood Staton estão em fase final de negociação com a rede norte-americana, segundo fontes do mercado. O processo de venda do McDonald's começou há um ano e meio, envolvendo cerca de oito investidores, e há seis meses a disputa está limitada entre o Pactual e Staton e o fundo GP Investments, com o empresário Gregory Ryan.

A associação aos executivos tem apresentado diferentes pesos na negociação com os fundos. Se por um lado Ryan, que já operou a rede no Brasil junto a Peter Rodenbeck (hoje Outback Steakhouse e Starbucks Brasil), detém o know-how da operação e é apontado com o mais apropriado para "salvar" o sistema de franquias da rede de fast food, Staton tem maior circulação junto à matriz nos Estados Unidos.

No início do processo, o GP também sondou o empresário argentino para ser parceiro na proposta, mas o Pactual ganhou o apoio do executivo com uma proposta melhor. "Ryan é melhor operador, tem boa relação com franqueados, é mais completo para assumir a rede. Mas o trânsito de Staton é melhor entre os executivos norte-americanos", afirma um executivo do mercado de fast food. "Os fundos estão focados na jogada financeira, mas o operador é importante para o futuro da companhia."

A oferta de valores está equilibrada, no patamar dos US$ 1,8 bilhão em que a rede foi avaliada na América Latina (incluindo imóveis). "Enquanto não tiver um contrato sacramentado, o negócio pode dar para trás, principalmente com esses dois players, que têm sempre uma carta na manga", diz o executivo.

Mas a parte mais intrigante da negociação, confirmada por fontes próximas aos fundos e aos empresários, é que por trás do recurso dos fundos haveria dinheiro do próprio McDonald's. "A companhia tem capital aberto nos Estados Unidos e tudo o que acontece nas lojas, seja um atraso de fornecedor na unidade do Guarujá (SP), ela tem que reportar à SEC (Securities and Exchange Comission), a CVM americana. Isso põe em risco o valor das ações, que oscila com freqüência", explica outro executivo. "Se a companhia tiver cotas num fundo que lida com o operacional, não precisa mais reportar isso, pois o controle é do fundo e o problema é dele. É um caminho que permite que a empresa não saia do negócio."

A participação da companhia seria um relevante percentual: entre 40% e 50% dos US$ 1,8 bilhão. É este aspecto que aponta para um acordo final entre a McDonald's e a Pactual. A negociação estava em pé de igualdade entre o fundo e o GP Investments, mas o Pactual está mais disposta a aceitar a condicionante e a rigidez da matriz, e por isso está mais avançado no processo de aquisição. Se por um lado a participação da companhia norte-americana diminui o comprometimento do fundo comprador em relação à aplicação de recursos e da própria operação, reduz o retorno para o novo investidor. "Temos que ponderar a validade deste aporte. Os fundos de private equilty estão com muita liquidez e não lhe interessa muito um negócio compartilhado desse", diz um analista de investimento.

A jogada inovadora e inédita nas operações da companhia permite lucro extra e voz ativa à matriz do McDonald's. Além de lucrar com os royalties sobre a operação latino-americana, a rede se livra das explicações quase diárias à SEC, mantém controlado o valor de suas ações e continua, de certa forma, no comando.

Imóveis

A parceria na empreitada solucionaria uma outra divergência: a alta probabilidade de o fundo operador querer se desfazer dos imóveis caros que a rede mantém na América Latina, imobilizadores de capital. Dos 544 restaurantes da rede no Brasil, cerca de 15% operam em imóveis próprios. Nos outros estabelecimentos, a rede tem controle sobre o ponto (paga luvas), mas não tem a propriedade do imóvel. "Algumas vezes a rede compra o imóvel ao lado da loja para posterior locação, já que o terreno se valoriza por ser vizinho a um McDonald's", conta o especialista em franquias.

A lucratividade em cima desses imóveis é, aliás, a principal discórdia entre as redes e seus franqueados. "O problema é que a rede tem cobrado aluguéis considerados extorsivos de seus operadores. Já chegou a cobrar 23% do faturamento bruto, e hoje cobra em torno de 15%. Ainda é muito alto se comparado a redes como Habib's, cujo aluguel dos franqueados fica em torno de 6% a 8%, compara. "Cerca de 60% da receita mundial da companhia McDonald's provém dos imóveis e os 40% restantes da operação de fast food. É uma empresa imobiliária disfarçada de lanchonete.

Outras discordâncias sobre a rigidez da matriz feitas por investidores que chegaram a participar da seleção de compradores já era previsível, conforme um especialista em franquia. "Quem entra nessa jogada já está preparado para enfrentar esse tipo de obstáculo. Não dá para fazer na América Latina uma operação diferente do restante do mundo", diz uma fonte. "Já existem adaptações, mas não dá para trocar o fornecedor em prol do preço e depreciando a qualidade. A Martin-Brower tem um acordo mundial com a rede, e não seria diferente no Brasil."

A maioria dos restaurantes da rede no Brasil operam hoje em joint ventures, enquanto na Argentina grande parte são no modelo de franchising. "No Brasil, a rede operava com tranqüilidade com Ryan à frente, mas a gestão de Marcel Fleishman ficou focada no lado financeiro, aumentando a discórdia com franqueados e a rentabilidade caiu", diz outra fonte do mercado. Hoje, Gregory Ryan está à frente da Atlântica Hotels, mas já operou a Jack In The Box, que pertencia à Purina, e também atuou com Abílio Diniz e Eduardo Mortari na rede de lanchonete Wells.

A rede McDonald's, o Pactual e o fundo GP Investments não comentam o assunto.

Maria Luíza Filgueiras

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