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Solução que vem de fora

Apesar da inação do governo brasileiro, ainda há esperança. Grandes grupos estrangeiros elegeram o Brasil como alvo de investimentos em logística.

Revista Exame
Outubro de 2006
Estudo Exame / Logística - investimentos

Um dos principais obstáculos ao desenvolvimento do Brasil é a falta de investimentos na área de infra-estrutura. Nas últimas décadas, os aportes não acompanharam o ritmo de crescimento do país e o que se vê hoje é um descompasso entre as necessidades do setor produtivo, que depende das artérias logísticas para fazer suas mercadorias chegar aos diversos mercados, e a falta de modernização de rodovias, ferrovias e portos brasileiros. Essa defasagem se intensificou a partir dos anos 80. De acordo com levantamento realizado por Paulo Tarso Resende, coordenador do Núcleo de Estudos Logísticos da Fundação Dom Cabral, nos anos 70, durante o milagre econômico, os investimentos em infra-estrutura equivaliam a 4% do PIB brasileiro, nível compatível com a velocidade de desenvolvimento do país na época. Depois disso, os recursos minguaram. Na década de 80, as verbas aplicadas no setor representavam 1,5% do PIB, caíram para 1,1% nos anos 90 até atingir a proporção de 0,3%, o que mal resolve o problema de manutenção das rodovias. Segundo Resende, não deixa de ser surpreendente o fato de o Brasil bater recordes de exportação nos últimos anos, apesar dos gargalos históricos. "Apesar de muito grave, o problema da infra-estrutura nacional de logística ainda não recebeu a atenção que merece", diz Resende.

Tão surpreendente quanto os resultados positivos da balança comercial é o interesse crescente de alguns países pelo Brasil. É o caso do Japão, que se manteve apático em relação ao mercado brasileiro por mais de uma década e agora volta novamente os olhos para o outro lado do mundo. De acordo com dados da Japan External Trade Organization (Jetro), entidade de promoção comercial do governo japonês, em 2006 os investimen tos japoneses no Brasil deverão chegar a 1 bilhão de dólares, um crescimento de quase 30% em relação ao ano passado e quatro vezes maior do que todo o montante investido aqui em 2004. Embora a entidade não seja precisa a respeito da participação da logística nesse total, sabe-se que boa parte do dinheiro será destinada a projetos ligados ao setor. "Os japoneses estão interessados, sobretudo, em iniciativas que aliam logística e energia", diz Alexandre Uehara, analista político-econômico da Jetro.

Razões da ineficiência
Uma pesquisa realizada pela Fundação Dom Cabral mostra que 85% das empresas brasileiras registraram aumento de custos logísticos nos últimos cinco anos. Confira as principais razões.
Má conservação das estradas
42%
Péssimo funcionamento dos portos
13%
Falta de segurança
13%
Falta de veículos
6%
Falta de armazenagem
5%
Mão-de-obra
4%
Outros
17%

No ano passado, o Japão aprovou uma lei que prevê a adição de 3% de álcool à gasolina com o objetivo de reduzir a emissão de poluentes. Em encontros recentes, o presidente Lula e o primeiro-ministro japonês, Junichiro Koizumi, definiram que o Brasil será um parceiro importante nesse processo. Contudo, para que o volume de álcool exportado seja significativo, como quer o Japão, é imprescindível que sejam feitos investimentos na expansão das malhas rodoviária e ferroviária e na modernização dos portos. Na falta de ações concretas do governo brasileiro, grupos privados japoneses começam a se mexer. O grupo Mitsui, um conglomerado com atuação que vai de mineração a bancos e indústrias químicas, está envolvido no desenvolvimento de projetos para exportação de etanol para o Japão. Hoje, além de a malha ferroviária brasileira ser deficiente, há poucos vagões para o transporte de cargas líquidas. No ano passado, a Mitsui exportou 2 milhões de quilolitros de etanol para o mercado japonês, mas a intenção é triplicar essa quantidade em até três anos. Isso só será possível com uma forte injeção de recursos. Por meio da MRC Serviços Ferroviários, braço do grupo que se dedica ao setor de ferrovias no Brasil, a Mitsui pretende investir em terminais de carga, portos e armazéns. Além dela, outros grandes grupos japoneses, como Mitsubishi e Marubeni, pretendem colocar dinheiro em projetos na área de petróleo no litoral do país, o que poderá consumir recursos estimados em 900 milhões de dólares.

Mas não é apenas o setor energético que tem despertado o interesse de estrangeiros. O setor imobiliário, que poucos associam ao segmento de logística, também se enquadra nesse cenário. Exemplo disso é a incorporadora americana Hines, que gerencia um fundo de funcionários públicos da Califórnia. A Hines está investindo 100 milhões de dólares na construção de prédios industriais, a maioria deles grandes galpões e centros de distribuição. O esquema funciona da seguinte maneira: a empresa procura um cliente interessado nesse tipo de construção, faz um estudo de viabilidade e ergue o imóvel. Depois, aluga o prédio para um operador logístico que, dessa forma, evita imobilizar parte de seu capital. "Já possuímos 200 000 metros quadros de área construída no estado de São Paulo", diz Steve Dolman, vice-presidente da subsidiária brasileira da Hines. "Nosso próximo passo é investir no Rio de Janeiro."

Não é de hoje que o Brasil atrai investimentos estrangeiros no segmento de logística. No início da década de 90, o grupo americano Martin-Brower veio ao Brasil para cuidar da logística de abastecimento dos restaurantes da rede McDonald's. Hoje, 80% do faturamento da empresa é gerado pelo fast food. Segundo o diretor para a América Latina da empresa, Tupanangyr Gomes, entre 2006 e 2007, a empresa investirá no país cerca de 15 milhões de dólares, principalmente na modernização da frota de caminhões e em sistemas tecnológicos. Por enquanto, as operações da empresa estão concentradas em São Paulo, mas o grupo Martin-Brower também entrega para as filiais de seus clientes em outros estados.

Rodrigo Squizato

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